Spirulina: da história ao uso
Atualizado: 22 de ago. de 2021
Ingerida antes de atividades extenuantes a mais de 400 anos atrás por povos astecas do México e sul africanos da região do Lago Chade, na África do Sul, a Spirulina ou Arthrospira platensis chamou a atenção da Organização das Nações Unidas (ONU) nos anos 70.
A ONU passou a utiliza-la como estratégia para o controle da desnutrição em regiões de vulnerabilidade. Chegou a considera-la “o melhor alimento para a humanidade” devido a sua riqueza nutricional que contém, além de aminoácidos, substâncias anti-inflamatórias e bons níveis de vitaminas e minerais.
Pouco tempo depois, ganhou maior popularidade mundial, nos anos 80, foi incluída pela NASA como suplemento nutricional para os astronautas em missões espaciais. Isso porque a Spirulina possui boa estabilidade em relação a conservação de seus nutrientes, mesmo após sua água ser evaporada. Ela pode ser exposta a altas temperaturas e ainda assim, mantem sua densidade nutricional, tornando-a um alimento de peso leve e prático.
Ainda nos tempos de hoje ela desperta a curiosidade de estudiosos que continuam testando e conhecendo os benefícios desse “superalimento”.
No México a Spirulina continua sendo um alimento tradicional e seu consumo associado ao cacau é muito comum.

A Arthrospira (Spirulina) platensis é uma microalga filamentosa de cor verde-azulada que tem seu nome derivado se seu formato espiral. Ela é encontrada naturalmente e com mais facilidade em ambientes salinos e alcaninos em certas regiões da África Central, México, Quênia e Etiopia, e recentemente, foi registrada sua ocorrência na Lagoa Mangueira, em Santa Vitória do Palmar - Rio Grande do Sul, Brasil.
Classificadas como cianobactérias, pertencentes ao grupo de bactérias fotossintetizantes, elas são consideradas um elo evolucionário entre bactérias e plantas verdes.
Estes microorganismos se desenvolvem em meio líquido e tem a capacidade de se multiplicar rapidamente, utilizando poucos recursos como carbono, nitrogênio, nutrientes específicos, luz, agitação para circulação das células, temperatura e pH adequados.
A Spirulina pode ser cultivada artificialmente utilizando áreas de terras improdutivas, produzindo maior capacidade nutricional, em menor espaço, se comparada com criação de gado. Além disso, ela utiliza dióxido de carbono(CO2) em um composto bioativo, através da fotossíntese e libera como produto o oxigênio. Quando comparada a plantas como soja, necessita de menos água, despensa o uso de pesticida e é uma fonte nutritiva utilizada por animais e humanos. Estima-se que aproximadamente metade do oxigênio lançado na atmosfera terrestre todos os dias vem do resultado da fotossíntese de microalgas, e o restante vem de plantas terrestres.
Em janeiro deste ano, professores da FURG ganharam uma competição mundial onde o objetivo é auxiliar na redução de CO2 no setor da aviação. O projeto da Escola de Química e Alimentos (EQA) da FURG trata-se da utilização de Spirulina e outras microalgas como estratégia na redução de gases de efeito estufa na atmosfera. O trabalho será aperfeiçoado em Dubai, juntamente de uma equipe de diferentes áreas, mas com o mesmo objetivo.
Conhecida por sua densidade nutricional, destaca-se a variedade e quantidade de aminoácidos presentes em sua composição, dentre eles os 9 aminoácidos essenciais (fenilalanina, histidina, isoleucina, leucina, lisina, metionina, treonina, triptofano e valina), além dos não essenciais.
Essa microalga ainda é rica em vitaminas do complexo B (B12, B6, B5, B2, B1), vitamina E e K, minerais (cálcio, ferro, fósforo, iodo, magnésio, zinco, selênio, cobre, manganês, cromo, potássio e sódio), pigmentos como ficocianina, betacaroteno, clorofila, zeaxantina e fitonutriente superóxido dismutase (SOD), ácido gama linoleico (GLA), conhecidos por seu importante potencial antioxidante, anti-inflamatório e imunomodulador.
Outra característica interessante é que ela apresenta ausência de celulose na parede celular, mantendo íntegro componentes como vitaminas e ácidos graxos poli-insaturados, garantindo boa digestibilidade e absorção, dispensando a utilização de calor para disponibilizar os nutrientes.
Em relação a macro nutrientes, diferentes estudos mostram que ela pode variar na quantidade de proteínas de 30 a 70%, 13 a 25% em carboidratos e 6 a 15% de lipídios.
A composição presente nos compostos bioativos depende das condições de cultivo, época de coleta e método de extração. Sua produção artificial ainda tem um custo financeiro elevado, apesar das vantagens ambientais e de saúde. A Spirulina parece ter um futuro promissor e os estudiosos continuam pesquisando formas de utiliza-la em diferentes áreas, do setor alimentar ao de cosméticos e sustentabilidade.

No Brasil, uma empresa do Mato Grosso é pioneira na produção em grande escala, 100% pura e de alta qualidade e em 2019 chegou a ser considerada a maior capacidade produtora da América Latina. Atualmente desenvolve produtos tópicos e orais tendo a Spirulina como ingrediente principal.
Apesar de ser historicamente utilizada como um componente alimentar, em 1990 houve um intenso aumento de pesquisas realizadas em humanos e em animais com intuito de aprofundar e descobrir o real potencial dessa microalga sob a saúde e quais efeitos ela poderia ter para os seres humanos.
A partir dessa época passou-se a especular em quais desordens orgânicas a Spirulina poderia contribuir de maneira benéfica. Foi então que a inclusão dessa cianobactéria tomou maiores proporções e popularidade na alimentação, passando a ser indicada em diversas situações, desde ativo anticâncer, a redutora de marcadores inflamatórios.
O uso da Spirulina como coadjuvante na redução de colesterol LDL, placas ateroscleróticas, triglicerídeos e glicemia também já é bem documentado, desde 1988. Sob avaliação correta de um profissional da saúde, pode ser incluída juntamente a uma alimentação saudável para promover a prevenção de doenças cardiovasculares, contribuindo também, no controle da pressão arterial. Suspeita-se que os responsáveis sejam o cromo e o ácido gama linoleico (GLA) presentes na Spirulina. As doses variam desde concentrações baixas até mais elevadas, dependendo do caso.
Seu potencial anti-inflamatório já é pauta de estudos a bastante tempo e demonstra que altas doses de Spirulina, por tempo predefinido, é capaz de controlar marcadores inflamatórios. Ela pode ser incluída em estratégias para controle de crises alérgicas e como imunomodulador. As pesquisas foram realizadas em pacientes com rinite alérgica resultando em um efeito protetor e reduzindo significativamente sintomas como congestionamento nasal, espirros, coceira e coriza.
Sabe-se que a intensidade dos sintomas alérgicos está relacionado a deficiência de nutrientes ocasionando na vulnerabilidade do sistema imunológico. O que pode estar relacionado com a redução dos sintomas é que a Spirulina é bastante rica nutricionalmente e contribui no reequilíbrio do sistema de defesa orgânico.
A Spirulina pode contribuir na melhora de anemias e modulação das células vermelhas, além de otimizar a recuperação em casos de má nutrição. Isso por ter quantidades significativas de ferro e ainda boa fonte de proteína.
Por ser rica em fenilalanina pode ser usada, juntamente com a alimentação saudável, em estratégias de redução de peso ou controle da fome, já que este aminoácido é precursor da colecistoquinina, um hormônio que está associado ao mecanismo de saciedade, podendo ser utilizada com doses controladas, antes de refeições em que haja maior apetite.
Um dos componentes bioquímicos mais interessantes da Spirulina é a c-ficocianina, que tem a capacidade de induzir a imunomodulação e propriedades antioxidantes e que ainda possui um provável efeito anticâncer, inibindo seletivamente a cicloxigenase-2 (COX-2). Recentemente, em 2019, um estudo mostrou que uma nanocomposição biosintetizada (Fe3O4/Ag) a partir da Arthrospira platensis (Spiruina) foi eficiente na inibição do câncer de mama.
Outra hipótese é que ela possa estar relacionada a função mitocondrial e no aumento da memória, tendo como efeito o aumento da disposição e da sensação energética. Isso porque ela contém polissacarídeos e ácidos graxos essenciais que são facilmente absorvidos pelas células, além de contribuírem na saúde intestinal, aumentando a formação de colônia de bactérias benéficas, como lactobacillus, e consequentemente há o aumento da produção de vitamina B6.
A Spirulina, apesar de tantos benefícios e de não ser considerada tóxica para pessoas saudáveis, não é indicada para todos. Seu consumo deve ser evitado por pessoas com fenilcetonúria, por exemplo, já que ela é rica em fenilalanina.
O uso em gestantes, lactentes e crianças, apesar das pesquisar realizadas em animais demonstrarem que não há risco significantes a saúde, também não é recomendado. A Spirulina é rica em iodo, podendo causar alterações tireoidianas em pessoas com predisposição ou mesmo em pacientes que já façam tratamento para alterações da glândula, ou ainda que sejam alérgicas a frutos do mar ou ao próprio iodo. Nestes casos faz-se ainda mais necessária a avaliação individual, sendo possível adequar doses e tempo de uso da microalga.
Pelo potencial modulador imunológico da Spirulina ela deve-se ficar atento ao uso por pessoas com doenças autoimunes, já que ela pode estimular a função de proteção natural do corpo, e então agravar sintomas de doenças como lúpus, artrite reumatóide, entre outras. Mostrando mais uma vez a importância de consultar com profissional qualificado nutricionista ou médico para avaliar a necessidade, além de doses, horários e tempo de uso, baseado na resposta individual de cada paciente.
Vale lembrar que efeitos adversos devido ao excesso de seu uso ou mesmo por reações naturais do corpo podem ocorrer. Dentre as mais comuns estão: mal estar digestivo, náuseas, constipação ou diarreia, lesões de pele como feridas ou bolinhas (erupções cutâneas) e ainda sede em excesso, sintomas comuns observados quando há o desenvolvimento de alergia a um determinado componente. É válido testar marcas diferentes já que o cultivo influencia na composição.
Além disso, é importante conhecer o mínimo sobre a marca de Spirulina que está sendo comprada. Há relatos de que consumir Spirulina de águas contaminadas com metais pesados, como mercúrio, por exemplo, fará com que maior quantidade do metal pesado fique armazenado no corpo, causando toxicidade. Importante citar também, que certas cianobactérias podem produzir uma substância chamada cianotoxina, que é potencialmente tóxica para seres humanos. O contato durante o cultivo da Arthrospira platensis com outras cianobactérias pode ocasionar em contaminação cruzada. Em 2008 foi relatado casos de rabdomiólise por contaminação de cianotoxina.
Concluindo, apesar de ser um componente alimentar seguro, a qualidade do cultivo e do processo de extração deve ser considerado a fim de se evitar componentes tóxicos, tornando-a nociva para a saúde. E ainda, questões individuais de saúde devem ser levadas em consideração antes da ingestão de Spirulina.
Apesar de diferentes estudos demonstrarem o potencial como “alimento do futuro da humanidade”, vale lembrar que somente a Spirulina não será suficiente para gerar melhoras significativas dos quadros citados acima. É importante manter um estilo de vida saudável, onde alimentação equilibrada em quantidades e qualidade esteja incluída na rotina assim como atividade física específica e atividades que contribuam com o bem estar da saúde mental.
A avaliação da necessidade, assim como dose e horário da ingestão da Spirulina são feitos durante a consulta com o seu Nutricionista, nunca inicie um complemento alimentar ou suplementação sem antes passar por uma consulta com a equipe que cuida da sua saúde.
REFERÊNCIAS:
Spirulina in Clinical Practice: Evidence-Based Human Applications.
Published online 2010 Oct 19.
Alimento de astronautas da Nasa, spirulina é cultivada em Mato Grosso - O Livre.
12 de novembro de 2019
Professores da FURG vencem competição mundial e participam de projeto de incubadora em Dubai - Universidade Federal do Rio Grande – FURG.
21 de janeiro de 2021.
A história da Spirulina - OLSON
11 de julho de 2016
The potential of future foods for sustainable and healthy diets. Nature Sustainability, 1(12), 782–789 | 10.1038/s41893-018-0189-7. 2019
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As contraindicações da spirulina que deve conhecer (vidaativa.pt).
30 de janeiro de 2020




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